quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

"Bandido bom é bandido ressocializado": informe-se sobre sequelas sociais e o preconceito contra as periferias brasileiras!



      O discurso instaurado há muito acerca do combate à criminalidade na periferia por meio da violência para com os criminosos tem ganhado forças no atual contexto sociopolítico brasileiro. A ideia da diminuição do crime através do extermínio dos praticantes deste, por sua vez, é resultante de uma linha de pensamento errônea e egoísta da sociedade para com as populações marginalizadas. Deste modo, tendo em vista a importância da garantia do direito à vida de todo e qualquer cidadão, colocar este assunto em pauta é de suma importância para o estabelecimento da paz entre as comunidades brasileiras.
      Fundamentando-nos no contexto histórico brasileiro, a formação das comunidades negligenciadas – as quais englobam majoritariamente negros e pobres – teve início concomitantemente à formação do Brasil, considerando nossos índios e os escravos trazidos em meados do século XVI. Após mais de 300 anos de escravidão, com a proclamação da Lei Áurea, a qual assinava em 1888 a carta de alforria assegurando a liberdade física dos escravos, cerca de 700 mil escravos se viram livres, pobres e reprimidos por uma sociedade aristocrata. Com isso, em meio à dificuldade da inserção social, estes escravos, juntamente à parcela pobre da população estratificada daquela época, contribuíram para a formação das periferias. Estas periferias, aglomerando a sociedade marginalizada, criaram um ambiente característico à classe social que ali habitava. Devido à presença de grande pobreza e rejeição social, o surgimento de um meio hostil caracterizou – e ainda caracteriza – as periferias de todo o Brasil. Mas, por quê tanta violência vinda desses marginalizados? A perpetuação da violência enquanto meio prático para a obtenção de algo ou forma de atingir um objetivo por essa população marginalizada, se dá, majoritariamente, em virtude da própria negligência da sociedade para com os marginalizados. Mas como? 
      Sociólogos comprovam que a condição financeira e a localização de moradia de uma família determinam o nível do acesso à saúde, educação e lazer. Portanto, ao marginalizar tais cidadãos pobres, a sociedade estratificada contribui não só para o aumento da desigualdade social, mas para o declínio exponencial da qualidade de vida dos cidadãos. Deste modo, diante de tal injustiça social a comunidade marginalizada busca em sua própria “fossa” seu subterfúgio, resultando no consumo de drogas para suprir a falta do lazer, o tráfico ocupando o lugar de uma oportunidade de emprego negada, e a violência como forma prática da obtenção de objetos de desejo, por exemplo. Portanto, pode-se concluir que com o declínio da participação social dos marginalizados, a frustração destes resulta no aumento da criminalidade, a qual se instala majoritariamente nas periferias devido à tal negligência social e ao ambiente hostil instaurado. Deste modo, compreendendo a raiz do impasse da hostilidade e da criminalidade nas periferias – o que afeta (in)diretamente a sociedade brasileira no geral –, nota-se a ineficácia da tentativa de calar a violência utilizando de mais violência. Tendo em vista a condição marginalizada dos criminosos da periferia em virtude da negligência social, o repúdio da sociedade negligenciadora há de contribuir apenas para o aumento da frustração desta comunidade isolada, instigando o crime.
     No atual contexto brasileiro, lamentavelmente, há ainda quem defenda a ideia de que a punição, quando não violenta, se trata de acobertar o erro cometido pelos infratores. No entanto, ao compreendermos a origem da adversidade da violência das periferias, a chegada à conclusão de que frustrar cidadãos dos quais seus atos são respostas para frustrações passadas é inútil, agressivo e ineficaz. Considerando o abismo entre a impunidade e a retificação comportamental, conclui-se que o investimento de base nessas comunidades negligenciadas – o qual é precário por parte dos governos e polarizado por parte dos movimentos civis  – é um dos mais eficazes caminhos para o combate à violência, ao tráfico e à criminalidade. Além disso, considerando a importância da repreensão às infrações em periferias – como em qualquer outro lugar do país –, a criação de um processo de propagação das noções de cidadania deve ser veemente disseminada pelo governo, fazendo com que os encarcerados estudem-nas enquanto cumprirem suas penas. 
      Deste modo, compreendemos que o estudo da história do país e a interpretação dos contextos se fazem, invariavelmente, primordiais para que se conclua/julgue algum caso. A remediação para a criminalidade, ainda que seja conveniente para o Governo, perpetuará o ciclo vicioso do crime. A prevenção dessa criminalidade e os investimentos na base do impasse da violência, em contrapartida, ainda que lentos e graduais, darão à sociedade brasileira maiores e mais eficazes retornos os quais nunca antes foram vistos. Portanto, as reformulações de conceitos empregados às populações não marginalizadas a respeito das comunidades negligenciadas são de suma importância. Assim, saindo da caixa de alienação governamental, lutaremos pela resolução do impasse da violência nas sociedades periféricas, defendendo o direito à vida dos cidadãos, desmistificando a meritocracia e construindo uma sociedade mais justa e igualitária.

“Covardes são quem tem tudo de bom e fornece o mal pra favela morrer” 
– Criolo   





Um comentário:

  1. A violência de um país ou região é diretamente proporcional a diferença entre as classes do mesmo. O uso de força bruta e letal para combater isso só alimenta mais o próprio problema além de ceifar vidas de uma determinada parcela da população e dos próprios aplicadores da lei, pois se algum infrator for autuado, não irá se entregar e irá resistir pois sabe qual será o seu destino. A frase "bandido bom é bandido morto" lembra um trecho do livro A revolução dos bichos, escrito por George Orwell, nele, as ovelhas, que são descritas como os animais menos inteligentes da revolução contra o homem são orientadas a sempre repetir a mesma frase: "Quatro patas bom, duas patas ruim". O uso de frases prontas e discursos vazios como esse são uma arma poderosa para criar massa de manobra. Isso é usado para vender uma solução rápida para uma situação complexa, a ideia de usar de violência para combater a violência, além de paradoxal, só serve para desviar atenção do foco do problema, a desigualdade social e a perpetuação da concentração de capital.
    Excelente texto Alessandra, parabéns.

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