Nossas raízes históricas – cujas entranhas estão identificadas com o selo da desigualdade socioeconômica estrutural – hoje são submetidas a visitações psíquicas nostálgicas, como as de quem sente falta do antigo lar cujas paredes mofaram, do antigo jardim com plantações de resistência hereditária ou mesmo do falecido avô alcoólatra e autoritário, ou autoritário e, por isso, alcoólatra – seja lá como você prefira encarar. Historicamente atrasado nas mais diversas esferas, nosso país tem criado uma gama de personalidades que formam comunidades – muitas vezes unidas pela obsessão pelo pertencimento ou mesmo pelo ódio à união, por nunca tê-la provado –, grupos estes que, sofrendo pela dor do não-pertencimento, almejam pertencer, mesmo sem saber a quê. Deu-se, pois, o início do “desprojeto” Brasil. Rebele-se aquele que foi coagido a cumprir, com maestria, suas obrigações: caos urbano como reflexo do êxodo rural por busca por prosperidade, exposição demasiada à boa vontade do patrão e um contra-piso gelado sob o qual se dorme, agradecendo pelo pão de cada dia. É o que se espera! O que acontece é que, na ausência da qualidade da educação transformadora, criou-se uma figura pitoresca que carrega em seu DNA o que Frantz Fanon identifica como sendo o resultado da construção trágica do complexo de inferioridade do sujeito colonizado que, transformando sua angústia em discurso de ódio, reproduz uma violência estrutural historicamente advinda da segregação racial milenar. Assim, nascem os Contestadores de Ocasião: sabe-se que há o que mudar, almeja-se a mudança, mas não conseguem identificar de onde viria tal transformação, uma vez que não conhecem o cerne da própria história.
Acredito na primordialidade da indignação: toda revolução é fruto de um desconforto. Por outro lado, se legítimos são os movimentos que agem em prol de uma causa coletiva, almejando uma conquista real e evolutiva, o que são, pois, tais Contestadores de Ocasião? Se a indignação com a inércia move nações, seria tal rebeldia ornamental um caminho traiçoeiro cuja insipiência da própria trajetória fosse capaz de nos levar de volta ao cenário colonizador em virtude de uma enjaulada ira irracional e incompreendida? Estaríamos, pois, revisitando nosso falecido avô autoritário só para sentir a sensação revolucionária das plantações de resistência? Fanon defendia que, periodicamente, todas as nações tinham de traçar o caminho das pedras rumo à libertação, uma vez que somente um gatilho histórico poderia contribuir para a retomada de consciência crítica e memória histórica. Acredito, pois, que tal desalienação para a reconstrução de narrativas possa ser alcançada por meio de lutas coletivas, mas o radicalismo performático tem nos levado a caminhos árduos, os quais foram, não ironicamente, previamente traçados. Reconheço, no entanto, que tal necessidade de desorientadas imposições agressivas e radicalistas no atual cenário político brasileiro são o reflexo de um sistema exploratório escravagista, responsável por boicotar 400 de nossos 500 anos de história documentada.
Revolta, ódio, violência: a divina trindade ideológica dos denominados Radicalistas Performáticos, que buscam, por meio da reprodução da opressão, abandonar a posição histórica de oprimidos e colonizados. Ainda na linha do pensamento freireano, referindo-me ao conceito de Educação Bancária – que permite compreender as relações hierárquicas de poder e sua responsabilidade no reforço das desigualdades que assolam o país –, acredito, enquanto docente, que a busca por uma visão decolonizadora seja, de fato, um caminho para a superação de tal cenário trágico. A partir de tal perspectiva, podemos compreender o peso de uma instrução educacional em que se toma o próprio país como protagonista da história a ser narrada. Se um coletivo unido pelo orgulho em pertencer à mesma nação é resultado de um coletivo desalienado e recuperado de sua síndrome de vira-latas, por que não ajustar a perspectiva de abordagem de nossos livros didáticos? A grande falha sistêmica consiste no fato de que a opressão que respaldou a criação do “desprojeto” Brasil jamais atuaria contra si mesma, o que culmina na inércia em massa, tanto dos anarquistas de condomínio quanto dos radicalistas performáticos. Se o sistema foi estruturado para legitimar as desigualdades que o sustentam, que caminhos devemos traçar, para além da sala de aula, para fomentar – não resgatar, pois nunca o tivemos – o sentimento patriótico original?
A distorção do patriotismo e dos valores éticos e morais advinda da necessidade de ocupar o papel do colonizador, pois, deve ser trabalhada nas futuras gerações, acredito. Assim, tamanha revolta – por autodepreciação e desprezo advindo de quem nos levou as riquezas –, originalmente velada por hostilidade, há de ser confrontada com a real demanda primitiva por insurreição. Ganância, crueldade e ufania: a divina trindade do sistema que corrompe uma nação, por comodidade, distorcendo seus valores e sua autopercepção. Como quebrar, pois, o ciclo colonizatório que perpetuou nossa familiaridade com a violência desmedida, o entreguismo velado de crença em melhorias e a submissão étnica-cultural? Como extirpar uma doença que se alimenta do cárcere intelectual? Como confiar no instinto de um avô alcoólatra e autoritário que, após nos trancar em casa, insiste em nos convencer de que a prisão é, na verdade, o único lugar seguro?

Sensacional. Tudo precisa ser revisto em nossa história. Creio que foram criadas... daí o viralatismo?
ResponderExcluirSim! O viralatismo é uma continuação daquilo que anteriormente conhecíamos como submissão e que, de alguma forma, ainda nos submetemos para termos o que nunca tivemos: o “local para chamar de lar”
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